Os números do IBGE divulgados nesta quarta-feira trouxeram um alívio relativo para quem acompanha a economia doméstica. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,21% em junho, a menor variação mensal desde outubro do ano passado. No acumulado de doze meses, o índice chegou a 4,6%, ainda acima do centro da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional.
A queda foi puxada principalmente pelo grupo de transportes, que recuou 0,8% após a redução nos preços dos combustíveis. A energia elétrica também contribuiu negativamente para o índice, reflexo do acionamento da bandeira tarifária verde no início do mês.
Alimentos resistem à tendência
O ponto de atenção está nos alimentos. O grupo subiu 0,54% em junho, com destaque para o tomate (alta de 12,3%), a batata-inglesa (8,7%) e o feijão-carioca (5,1%). Segundo o IBGE, a estiagem prolongada nas regiões produtoras do Sul e do Centro-Oeste está pressionando a oferta de hortaliças e leguminosas.
"O que vemos é uma desinflação seletiva. Quem tem carro ou paga conta de luz sente o alívio. Quem vai ao mercado com orçamento apertado, não tanto." — economista Ana Figueiredo, da Fundação Getulio Vargas
A pressão sobre alimentos tem impacto desproporcional nas famílias de baixa renda, que destinam parcela maior do orçamento a esse grupo. Pesquisa da FGV Social publicada em maio mostrou que a inflação efetiva das famílias no quinto de renda mais baixo foi 1,8 ponto percentual acima da média nacional nos últimos doze meses.
Banco Central mantém postura cautelosa
O Banco Central, que manteve a taxa Selic em 10,75% ao ano na última reunião do Copom, deve continuar observando os dados antes de qualquer movimento. A ata da reunião de junho indicou que o comitê avalia o cenário como "incerto", com riscos tanto para cima quanto para baixo.
Analistas do mercado financeiro consultados pela Bloomberg estimam que a primeira redução de juros pode ocorrer apenas no quarto trimestre, caso a inflação continue recuando e o câmbio se estabilize. O dólar fechou a semana em R$ 5,42, ainda pressionado pelo cenário externo.
Para o economista Marcus Vinícius Pinto, do Instituto Brasileiro de Economia, o dado de junho é positivo mas não muda o quadro estrutural. "Temos uma economia que ainda opera com capacidade ociosa e um mercado de trabalho que, apesar do emprego formal em alta, não gera pressão salarial suficiente para sustentar consumo. O crescimento que vemos é frágil."
Perspectivas para o segundo semestre
As projeções para o restante do ano variam. O relatório Focus, que consolida as expectativas de mercado, aponta IPCA de 4,2% para o fechamento de 2025. Já o governo trabalha com cenário mais otimista, de 3,8%, baseado na expectativa de safra agrícola robusta e estabilidade cambial.
O que ninguém contesta é que a estiagem no Sul — a mais severa em duas décadas, segundo o Inmet — representa o principal risco para os próximos meses. Se as chuvas não voltarem com regularidade até agosto, a pressão sobre alimentos pode reverter parte dos ganhos recentes.