O sistema DETER, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, registrou 2.847 km² de alertas de desmatamento na Amazônia Legal entre janeiro e junho de 2025. O número representa uma queda de 38% em relação ao mesmo período de 2024 e o menor valor para um primeiro semestre desde 2019.
A queda é distribuída de forma irregular entre os estados. Pará e Mato Grosso, que historicamente concentram a maior parte do desmatamento, apresentaram recuos de 42% e 31%, respectivamente. Já Roraima registrou alta de 7%, o que preocupa pesquisadores que monitoram a região.
O que explica a queda
Pesquisadores apontam uma combinação de fatores. O aumento das operações de fiscalização pelo Ibama, com 34% mais autos de infração no período, é citado como determinante. Mas há também um componente climático: a seca severa de 2024, que devastou partes da floresta, reduziu a atratividade de algumas áreas para novos desmatamentos.
"Não podemos confundir floresta degradada com floresta preservada. Parte da queda nos alertas reflete áreas que já perderam sua cobertura original em anos anteriores." — Adriana Moreira, pesquisadora do IPAM
A pesquisadora se refere a um fenômeno conhecido como "efeito legado": quando uma área já foi muito desmatada, os alertas naturalmente diminuem porque não há mais floresta a derrubar. Esse efeito distorce a leitura dos dados se não for considerado.
Pressões que persistem
Apesar dos números positivos, o setor fundiário continua pressionando por regularização de terras em áreas de proteção ambiental. Três projetos de lei em tramitação no Congresso, se aprovados, poderiam abrir precedentes para a exploração de territórios atualmente protegidos.
O Greenpeace Brasil publicou nota alertando que a queda nos alertas não deve ser interpretada como vitória definitiva. "A floresta ainda está sob ameaça. O que mudou foi a intensidade da pressão imediata, não as causas estruturais do desmatamento", afirma o coordenador de campanha da organização, Rafael Bitencourt.
No Pará, comunidades ribeirinhas relatam aumento de conflitos fundiários em áreas próximas a projetos de infraestrutura. A BR-163, cujo trecho norte está em obras, é apontada como vetor de pressão sobre territórios indígenas e unidades de conservação.
Meta climática e compromisso internacional
O Brasil assumiu, na COP28, o compromisso de zerar o desmatamento ilegal até 2030. Os dados do primeiro semestre de 2025 são vistos pelo governo como evidência de que a meta é alcançável, mas ambientalistas lembram que o ritmo de redução precisa se manter e, de preferência, acelerar.
A próxima conferência do clima, prevista para novembro, deve colocar o Brasil novamente no centro das atenções. O país sediará a COP30 em Belém, em 2026, o que aumenta a pressão política para apresentar resultados concretos.