Na Praça da Bandeira, em Juazeiro do Norte, um toldo azul instalado por moradores do bairro do Pirajá distribui água fresca e soro caseiro desde as seis da manhã. Não é uma ação da prefeitura. Foi uma iniciativa de dona Francisca Bezerra, 67 anos, que viu os vizinhos passando mal durante a onda de calor que atingiu o Cariri cearense no final de junho.

"A gente não pode esperar. Quando o governo chega, às vezes já é tarde", diz ela, enquanto enche garrafinhas plásticas reutilizadas com água filtrada. Ao redor, crianças e idosos se revezam na sombra improvisada.

A cena se repete, com variações, em dezenas de municípios do interior nordestino e do centro-oeste. O Inmet registrou temperaturas acima de 40°C em pelo menos 180 cidades brasileiras entre os dias 22 e 29 de junho, com sensação térmica chegando a 47°C em algumas localidades do sertão.

Respostas institucionais tardias

A crítica mais comum que ouvimos durante a reportagem — feita em Barreiras (BA), Montes Claros (MG) e Juazeiro do Norte (CE) — é que as prefeituras demoram a reagir. Em Barreiras, o plano municipal de contingência climática foi aprovado em 2023 mas nunca regulamentado. A secretaria de saúde do município informou, por nota, que "as equipes estão em alerta e prontas para atender demandas".

"Alerta não hidrata ninguém. A gente precisa de estrutura, de pessoas, de água." — Marcelo Santos, agente comunitário de saúde em Barreiras

Em Montes Claros, a situação é diferente. A prefeitura abriu três "pontos frescos" em praças públicas, com ventiladores, água e atendimento de enfermagem. A iniciativa foi elogiada por moradores, mas a cobertura ainda é insuficiente para uma cidade de 430 mil habitantes.

Grupos de WhatsApp como rede de socorro

Uma das descobertas mais surpreendentes da reportagem foi o papel das redes de mensagens na coordenação do socorro informal. Em Juazeiro do Norte, um grupo de WhatsApp chamado "Calor Solidário" reúne 847 membros e funciona como central de distribuição de informações sobre pontos de água, casos de insolação e pedidos de ajuda.

O grupo foi criado por uma professora aposentada, Raimunda Alves, após ela mesma ter sofrido um episódio de desidratação em 2024. "Aprendi na pele o que é o calor sem apoio. Não quero que ninguém passe por isso sozinho."

Pesquisadores da Fiocruz que monitoram os impactos das ondas de calor no Brasil dizem que iniciativas como essa são importantes, mas não substituem políticas públicas estruturadas. "O que vemos é a população preenchendo lacunas que deveriam ser do Estado. É admirável, mas é também um sinal de falha sistêmica", afirma a epidemiologista Cristiane Mota.

O que os especialistas recomendam

A Organização Pan-Americana da Saúde publicou em maio um guia para municípios brasileiros sobre prevenção de mortes por calor extremo. Entre as recomendações: mapeamento de populações vulneráveis, criação de redes de alerta precoce e garantia de acesso a espaços climatizados para idosos e crianças.

O Brasil não tem, até agora, uma política nacional de adaptação ao calor extremo. O Ministério da Saúde informou que está elaborando um plano, mas não deu prazo para sua conclusão. Enquanto isso, dona Francisca continua enchendo garrafinhas na praça.